A imagem clássica da psicanálise — o divã, o analista silencioso, a busca por traumas remotos da infância — ainda povoa o imaginário popular. Embora fundamental, essa imagem representa apenas o ponto de partida de uma disciplina que, em sua essência, nunca parou de evoluir.
A psicanálise contemporânea não é um dogma congelado no tempo, mas uma prática viva, plural e em constante diálogo com os desafios do nosso século.
Muitas vezes, a adesão rígida a uma única escola de pensamento, seja ela freudiana, lacaniana ou kleiniana, corre o risco de se transformar em uma ideologia de tratamento.
Uma abordagem que tenta encaixar a complexidade de um indivíduo em uma teoria pré-definida, em vez de adaptar a teoria para escutar a singularidade do sujeito.
Isso limita a potência da análise e desrespeita a autonomia de quem busca ajuda.
A psicanálise contemporânea, como a entendo e pratico, adota uma posição dialética.
Ela promove o diálogo entre diferentes matrizes teóricas e com outros campos do saber, como a filosofia, a medicina e as neurociências.
Este artigo é um convite para conhecer a potência de uma psicanálise que valoriza a pluralidade, que se adapta ao sujeito e que tem como objetivo central não a adesão a uma doutrina, mas a expansão da liberdade e da autonomia de cada um.
Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Sumário
Introdução: Descongelando a Imagem da Psicanálise
A imagem clássica da psicanálise — o divã, o analista silencioso, a busca por traumas remotos da infância — ainda povoa o imaginário popular. Esta imagem, imortalizada pela cultura e pelo cinema, carrega a força de uma origem revolucionária, mas, quando vista de forma isolada, corre o risco de apresentar a psicanálise como uma relíquia, uma prática congelada na Viena do início do século XX.
Embora fundamental, essa imagem representa apenas o ponto de partida de uma disciplina que, em sua essência, nunca parou de evoluir.
A psicanálise contemporânea não é um dogma, mas uma prática viva, plural e em constante diálogo com os desafios do nosso século.
No entanto, é preciso reconhecer que, ao longo de sua história, certas vertentes da psicanálise se fecharam em ortodoxias.
A adesão rígida a uma única escola de pensamento, seja ela freudiana, lacaniana ou kleiniana, por vezes se transformou em uma ideologia de tratamento.
Uma abordagem que, inadvertidamente, tenta encaixar a complexidade infinita de um indivíduo em uma teoria pré-definida, em vez de adaptar a teoria para escutar a singularidade do sujeito. Este enrijecimento limita a potência da análise e, em última análise, desrespeita a totalidade e a autonomia de quem busca ajuda.
O Risco da Ortodoxia: Política Institucional e o Silenciamento do Sujeito
Toda teoria é um mapa, uma ferramenta para nos ajudar a navegar um território desconhecido. O risco surge quando confundimos o mapa com o território. No campo psicanalítico, essa confusão é, muitas vezes, alimentada por uma questão que transcende o debate puramente teórico: a política institucional.
A adesão rígida a uma escola de pensamento, por vezes, tem menos a ver com a busca pela verdade clínica e mais com a manutenção de poder e de uma linhagem “pura” dentro de certas instituições.
Essa ortodoxia, ao se tornar uma ideologia, gera consequências clínicas graves:
- O sofrimento do paciente passa a ser traduzido exclusivamente nos termos daquela escola (“Isso é um complexo de Édipo não resolvido”, “Isso é uma foraclusão do Nome-do-Pai”).
- A técnica torna-se rígida, aplicando o mesmo tipo de intervenção para diferentes formas de sofrimento.
- A relação terapêutica deixa de ser um encontro entre dois sujeitos para se tornar a aplicação de uma doutrina, silenciando a singularidade em nome da teoria.
Esta abordagem falha em reconhecer o que a prática clínica nos ensina todos os dias: não existe “um” tipo de sofrimento, mas infinitas formas de sofrer.
Uma psicanálise que se pretende relevante para o século 21 precisa, necessariamente, ser plural e colocar o interesse no desenvolvimento humano do sujeito acima de qualquer disputa de poder institucional.
A Posição Dialética: A Psicanálise em Diálogo
A psicanálise contemporânea, como a entendo e pratico, e como discuto em meu artigo “A Posição Dialética da Psicanálise Contemporânea no Brasil“¹, adota uma postura fundamentalmente diferente.
Ela é dialética. Isso significa que ela não busca uma verdade única e final, mas se constrói no diálogo, na tensão criativa entre diferentes perspectivas.
Diálogo Interno: As Múltiplas Matrizes
A prática contemporânea não exige uma escolha excludente entre Freud, Klein, Lacan, Winnicott ou Bion.
Pelo contrário, ela reconhece que cada um desses grandes pensadores iluminou uma faceta diferente do complexo diamante que é o psiquismo humano.
Como nos ensina Luís Cláudio Figueiredo, a psicanálise se constitui de diferentes “matrizes e modelos” de pensamento², e um analista contemporâneo transita por eles, utilizando o conceito que melhor se aplica para compreender o sofrimento singular do paciente à sua frente.
Diálogo Externo: Abertura para Outros Saberes
Uma psicanálise relevante não pode ser uma ilha. A abordagem contemporânea está em constante diálogo com outros campos do saber.
Ela se enriquece com as contribuições da filosofia para pensar o mal-estar na cultura, como faz Joel Birman³, com a Psicopatologia Fundamental de Manoel Tosta Berlinck⁴ para resgatar a dimensão do pathos (paixão) no sofrimento, e com a medicina psiquiátrica e neurológica para construir um cuidado integral, como defendido por Eizirik et al.⁵.
Esta não é uma perda de identidade, mas um sinal de vitalidade e rigor intelectual.
A Potência da Pluralidade na Prática Clínica
Esta visão plural e dialética se traduz em uma prática clínica focada na autonomia do sujeito.
Se não há uma única teoria que explique tudo, então não há um único caminho para a “cura”.
O objetivo da análise contemporânea não é levar o paciente a um estado ideal pré-definido pelo analista, mas sim ajudá-lo a construir o seu próprio caminho, a se tornar o autor da sua própria história.
Isso se reflete em:
- Flexibilidade do Enquadre: O setting analítico se adapta às necessidades do paciente. Como nos lembrava Winnicott, há momentos em que o que se pratica não é a análise clássica, mas “aquela outra coisa” que só pode ser bem-feita por um bom analista⁶. Esta flexibilidade permite o uso de um “continuum de intervenções”, como formulado por Gabbard⁷, que vai desde a interpretação até a validação empática.
- Foco na Criação: A análise torna-se menos uma arqueologia do passado e mais um espaço para a criação de novos sentidos no presente. É um convite ao brincar, ao imaginar, ao construir novas formas de se relacionar consigo e com o mundo.
Este artigo é um convite para conhecer a potência de uma psicanálise que se libertou das amarras da ortodoxia. Uma prática que honra seu passado, mas que não tem medo de dialogar com o presente. Uma psicanálise que acredita que a sua maior força não reside na certeza de uma teoria, mas na coragem de sustentar uma pergunta, sempre aberta, sobre o mistério de ser humano.
Referências
¹ SANTANA, Jansen Maxwell de Freitas. A Posição Dialética da Psicanálise Contemporânea no Brasil. Trabalho de Conclusão de Curso (Pós-Graduação em Psicanálise e Análise do Contemporâneo) – PUCRS, 2025.
² FIGUEIREDO, Luís Cláudio. Adoecimentos Psíquicos e Estratégias de Cura: Matrizes e Modelos em Psicanálise. São Paulo: Blucher, 2018.
³ BIRMAN, Joel. O Sujeito na Contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
⁴ BERLINCK, Manoel Tosta. Psicopatologia Fundamental. São Paulo: Escuta, 2008.
⁵ EIZIRIK, Cláudio Laks; et al. Psicoterapia de Orientação Analítica: Fundamentos e Prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015.
⁶ WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
⁷ GABBARD, Glen O. Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.
Como Citar Este Artigo (ABNT)
SANTANA, Jansen. Psicanálise para o Século 21: Para Além da Ortodoxia. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 23 jul. 2025. Disponível em: <link da página>. Acesso em: [data de acesso].
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