Muda o rosto, o nome, o cenário, mas, no final, a história parece ser a mesma. A sensação de estar preso em um ciclo de repetição nos relacionamentos — seja escolhendo sempre o mesmo tipo de parceiro indisponível, recriando as mesmas discussões ou terminando pelos mesmos motivos — é uma das fontes mais profundas de frustração e sofrimento.
Questionamo-nos: “Por que isto acontece sempre comigo?”.
A tendência é buscar respostas na lógica consciente, culpando o outro, o acaso ou a falta de sorte. No entanto, para a psicanálise, essa repetição não é um acidente, mas um roteiro.
Um roteiro escrito pelo inconsciente, encenado em nossas vidas afetivas. Freud chamou este fenômeno de “compulsão à repetição”, uma força que nos impele a reviver, sem que nos demos conta, situações e emoções do nosso passado, especialmente aquelas que permaneceram por elaborar.
O parceiro que escolhemos ou o conflito que recriamos tornam-se, então, um palco onde tentamos, de forma inconsciente e muitas vezes dolorosa, resolver um drama antigo.
A análise oferece um espaço para ler este roteiro. Ao trazer à luz as dinâmicas inconscientes que moldam nossas escolhas, o trabalho analítico permite quebrar o ciclo.
Não se trata de encontrar o “parceiro perfeito”, mas de se tornar um autor mais consciente da sua própria história de amor, com a liberdade de escrever um novo final.
Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Sumário
Introdução: O Roteiro Invisível dos Nossos Amores
Muda o rosto, o nome, o cenário, mas, no final, a história parece ser a mesma. A sensação de estar preso em um ciclo de repetição nos relacionamentos — seja escolhendo sempre o mesmo tipo de parceiro emocionalmente indisponível, recriando as mesmas discussões destrutivas ou terminando pelos mesmos motivos — é uma das fontes mais profundas de frustração e sofrimento.
A cada novo fracasso, a pergunta ecoa com mais força: “Por que isto acontece sempre comigo?”.
A tendência é buscar respostas na lógica consciente.
Culpamos o outro pela falta de compromisso, o acaso por nos colocar sempre nas mesmas situações, ou a “falta de sorte” no amor.
No entanto, para a psicanálise, essa repetição raramente é um acidente. Ela é um roteiro. Um roteiro invisível, escrito nas profundezas do nosso inconsciente, que encenamos repetidamente em nossas vidas afetivas, na esperança vã de que, desta vez, o final seja diferente.
Freud e a Compulsão à Repetição: Um Conceito Fundamental
Sigmund Freud, ao observar seus pacientes, deparou-se com um fenômeno intrigante: a tendência humana de repetir experiências dolorosas, mesmo quando, conscientemente, desejamos evitá-las. Em sua obra seminal “Além do Princípio do Prazer” (1920), ele nomeou esta força de “compulsão à repetição”¹.
Este conceito descreve uma pulsão inconsciente que nos impele a reviver, sem que nos demos conta, situações, traumas e emoções do nosso passado, especialmente aquelas que foram mal resolvidas ou que permaneceram por elaborar.
Não se trata de um desejo masoquista pelo sofrimento. Pelo contrário, a repetição é uma tentativa paradoxal de cura.
O inconsciente, atemporal, não distingue passado e presente. Ao recriar um cenário antigo no palco da vida atual, ele tenta, de forma desajeitada, dominar a situação traumática original, dar-lhe um novo desfecho, finalmente “acertar as contas” com a dor.
O problema é que, sem a consciência do que está a ser repetido, estamos condenados a encenar o mesmo drama, com os mesmos resultados dolorosos. O parceiro que escolhemos ou o conflito que recriamos tornam-se, então, um palco onde tentamos, de forma inconsciente, resolver um drama antigo com nossos pais, irmãos ou primeiros amores.
O Palco do Amor: Como a Repetição se Manifesta
As formas como este roteiro inconsciente se manifesta na vida amorosa são vastas, mas alguns padrões são recorrentes em minha prática clínica.
A Escolha do Objeto: O "Dedo Podre"
A queixa de ter “dedo podre” para relacionamentos é um clássico. A pessoa se vê consistentemente atraída por parceiros com características que, racionalmente, sabe que lhe farão mal: o narcisista que não a enxerga, o dependente que a sobrecarrega, o ausente que recria um sentimento de abandono.
Essa escolha não é aleatória. Inconscientemente, a pessoa não está a escolher um novo parceiro, mas a reencontrar uma figura familiar do seu passado.
A busca não é pelo amor saudável, mas pela familiaridade do conflito, na esperança de, desta vez, conseguir “consertar” ou ser amada por aquela figura que, na origem, não pôde lhe dar o que ela precisava.
A Encenação do Conflito: A Mesma Briga, Outro Endereço
Outro padrão comum é a repetição de dinâmicas de conflito. O casal se vê preso em discussões que parecem seguir sempre o mesmo roteiro, sobre os mesmos temas (dinheiro, ciúmes, falta de atenção), sem nunca chegar a uma resolução.
Muitas vezes, o que está a ser encenado não é o problema presente, mas uma dinâmica aprendida na infância.
A pessoa pode estar a recriar a relação que seus pais tinham, ou a repetir a única forma que aprendeu para obter atenção. A briga torna-se um palco para emoções que não pertencem à relação atual, mas que a invadem e a corroem.
O Ciclo de Aproximação e Fuga
Este padrão é comum em pessoas que temem a intimidade.
Elas anseiam por uma conexão profunda, mas, quando a relação começa a se aprofundar, uma angústia insuportável emerge, levando-as a sabotar o relacionamento.
Elas podem provocar uma briga, desaparecer ou encontrar um defeito intolerável no parceiro. Esta fuga não é do outro, mas de si mesmo.
É uma defesa contra a vulnerabilidade e o medo de reviver uma dor antiga de abandono ou de anulação.
A Análise como Sala de Roteiro: Reescrevendo a Própria História
Se a repetição é um roteiro, a análise é a sala onde podemos finalmente lê-lo.
O trabalho analítico oferece um espaço seguro para que esses padrões venham à tona, não para serem julgados, mas para serem compreendidos.
A Transferência: O Passado no Presente
Na relação com o analista (a chamada “transferência”), o paciente inevitavelmente começa a repetir os mesmos padrões de relacionamento da sua vida.
Ele pode idealizar o analista, sentir raiva, tentar seduzi-lo ou sentir-se abandonado. É ao analisar estas emoções, que emergem “aqui e agora” no consultório, que podemos ter um acesso privilegiado ao roteiro original.
A análise da transferência permite que o paciente perceba, em tempo real, como suas dinâmicas inconscientes operam.
Da Atuação à Elaboração
O objetivo da análise é promover a passagem do acting out (a atuação inconsciente da repetição) para a perlaboração (a elaboração consciente do conflito).
Ao dar palavras à dor, ao conectar os sentimentos presentes com a sua origem no passado, o paciente começa a desarmar a compulsão à repetição.
Ele não precisa mais encenar o drama, pois agora pode compreendê-lo.
O objetivo final não é encontrar o “parceiro perfeito” ou uma vida sem conflitos. É devolver ao sujeito a autoria sobre a sua própria história.
É passar do papel de um ator que repete um roteiro que não escreveu para o de um autor consciente, com a liberdade de criar novos enredos, de se relacionar de forma mais autêntica e de, finalmente, escrever um novo final para a sua história de amor.
Se você se vê preso nestes ciclos, convido-o a iniciar uma conversa.
Referências
¹ FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920). In: Obras Completas, vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Como Citar Este Artigo (ABNT)
SANTANA, Jansen. Por que Repito os Mesmos Padrões nos Relacionamentos?. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 22 jul. 2025. Disponível em: <Link da página> Acesso em: [data de acesso].
Pronto para uma nova relação consigo mesmo?
O primeiro passo para a transformação é a decisão de iniciar.
Agende uma conversa inicial para explorarmos como o processo analítico pode ajudá-lo em sua jornada.

Presença Tripla na XXXI Semana Científica da UNIFASE/FMP: Uma Análise Crítica do Digital e da Educação
Tenho a honra de anunciar minha participação na XXXI Semana Científica da UNIFASE/FMP, que acontecerá entre os dias 28 e 30 de outubro de 2025,

Psicanálise para o Século 21: Para Além da Ortodoxia
A imagem clássica da psicanálise — o divã, o analista silencioso, a busca por traumas remotos da infância — ainda povoa o imaginário popular. Embora

A Solidão do Líder: Uma Leitura Psicanalítica do Poder
No topo da pirâmide corporativa, o empreendedor, o líder ou a coordenadora podem estar rodeados de pessoas — diretores, conselheiros, equipes inteiras. No entanto, é

A Síndrome do Impostor: Por que o Sucesso Externo não Silencia a Dúvida Interna?
O currículo é impecável, as promoções são consistentes, os elogios são públicos. Para o mundo exterior, você é a imagem do sucesso. Mas, internamente, no

Anitta vs. Larissa: Uma Análise sobre o Custo da Alta Performance
No palco global, ela é Anitta: a empresária implacável, a artista multifacetada, a máquina de alta performance que parece não ter limites. Mas por trás

O Roteiro de Amy: Uma Análise sobre Repetição, Trauma e Destino
A voz de Amy Winehouse era um portal para o passado. Um contralto rouco e profundo que parecia carregar em si toda a história do