A voz de Amy Winehouse era um portal para o passado. Um contralto rouco e profundo que parecia carregar em si toda a história do jazz e do soul.
Mas, para além da gênia musical, a sua vida foi um drama público, uma tragédia que assistimos em tempo real.
A narrativa comum resume a sua história a excessos: o álcool, as drogas, o amor destrutivo. Mas para a psicanálise, essa é apenas a superfície.
A tragédia de Amy não foi um acidente, mas o ato final de um roteiro escrito muito antes de ela subir ao palco.
Um roteiro de abandono e de uma busca desesperada por um amor que pudesse, finalmente, curar uma ferida original.
A sua vida, vista através da lente analítica, é uma ilustração dolorosamente clara do que Freud chamou de “compulsão à repetição”: a força inconsciente que nos impele a reviver os nossos traumas, na esperança vã de, desta vez, lhes dar um final diferente.
Os seus relacionamentos, a sua relação com a fama e, finalmente, com as substâncias, tornaram-se o palco onde ela encenava, repetidamente, o drama do abandono.
Este artigo é um convite para olhar para além da caricatura da “estrela torturada” e escutar a história que a sua vida nos conta — uma história sobre a força do inconsciente e sobre a importância de um espaço onde os nossos roteiros mais antigos possam, finalmente, ser lidos e reescritos.
Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Sumário
Introdução: A Voz que Contava uma História Antiga
A voz de Amy Winehouse era um portal para o passado. Um contralto rouco e profundo que parecia carregar em si toda a história do jazz e do soul.
Quando ela cantava, ouvíamos ecos de Billie Holiday, de Sarah Vaughan, de Dinah Washington. Mas, para além da gênia musical, a sua vida foi um drama público, uma tragédia que assistimos em tempo real através das lentes impiedosas dos tabloides.
A narrativa comum resume a sua história a uma série de excessos: o álcool, as drogas, o amor destrutivo que a consumiu.
Mas para a psicanálise, essa é apenas a superfície, o ato visível de um drama muito mais antigo e profundo.
A tragédia de Amy não foi um acidente, mas o ato final de um roteiro escrito muito antes de ela subir ao palco.
Um roteiro de abandono e de uma busca desesperada por um amor que pudesse, finalmente, curar uma ferida original.
A sua vida, vista através da lente analítica, é uma ilustração dolorosamente clara do que Freud chamou de “compulsão à repetição”: a força inconsciente que nos impele a reviver os nossos traumas, na esperança vã de, desta vez, lhes dar um final diferente.
Os seus relacionamentos, a sua relação com a fama e, finalmente, com as substâncias, tornaram-se o palco onde ela encenava, repetidamente, o drama do abandono.
A Cena Original: A Ferida do Abandono
Para compreender o roteiro de Amy, precisamos voltar à sua infância, à cena original que parece ter marcado a sua matriz afetiva.
O aclamado documentário “Amy” (2015), de Asif Kapadia¹, nos dá vislumbres preciosos desse período.
A separação dos seus pais, e em particular a ausência da figura paterna durante momentos cruciais, parece ter inscrito em seu psiquismo uma ferida primordial: a da imprevisibilidade e do abandono.
Não se trata de buscar culpados, mas de compreender a mecânica psíquica. Para uma criança, a ausência de um pai não é apenas uma cadeira vazia à mesa; é um abalo na fundação do seu mundo.
Pode gerar uma convicção inconsciente de não ser digna de amor ou de que aqueles que ama irão, inevitavelmente, partir. Esta convicção torna-se o núcleo de um drama que, mais tarde, a compulsão à repetição se encarregará de reencenar.
A sua famosa canção “What Is It About Men?” é quase um manifesto psicanalítico, onde ela canta: “Eu não consigo evitar, sou como a minha mãe, vejo o amor como cego”.
Ela própria parecia ter uma consciência trágica do roteiro que estava seguindo.
A Repetição no Palco do Amor: Blake Fielder-Civil
Se a ferida original foi o abandono, o seu relacionamento com Blake Fielder-Civil foi o palco perfeito para a sua reencenação. Blake não foi a causa da sua tragédia, mas o ator coadjuvante que o seu inconsciente escolheu para representar um papel familiar.
Ele era a personificação da intensidade e da ausência, do amor que a consumia e que, ciclicamente, a abandonava.
A relação tumultuada, marcada por idas e vindas, traições e uma dependência mútua, era a repetição, em volume máximo, do drama original.
Cada separação reabria a ferida do abandono; cada reconciliação era uma tentativa desesperada de, desta vez, ser amada de forma incondicional, de “consertar” a cena original. Como Freud nos ensinou, na compulsão à repetição, não buscamos o prazer, mas a familiaridade, mesmo que a familiaridade seja a da dor². O sofrimento com Blake era terrível, mas era um sofrimento conhecido.
A Adicção como Personagem: Anestesiando a Dor da Repetição
É impossível falar de Amy Winehouse sem falar da sua relação com o álcool e as drogas. Mas, para a psicanálise, a adicção raramente é o problema em si. Ela é uma “solução”. Uma solução trágica e autodestrutiva, mas uma solução para uma dor psíquica que se tornou insuportável.
As substâncias entraram em cena como um terceiro personagem no seu drama. Se o roteiro da repetição a forçava a reviver a angústia do abandono incessantemente, o álcool e as drogas funcionavam como um anestésico.
Eles ofereciam um alívio temporário, um silenciamento da dor que a sua mente não conseguia mais elaborar. A dependência química tornou-se, então, não a causa da sua infelicidade, mas a consequência de um sofrimento que não encontrou outras vias de expressão.
Ela cantou isso de forma explícita em “Rehab”: “Eles tentaram me fazer ir para a reabilitação, eu disse não, não, não… Eu não tenho tempo, e se meu pai acha que estou bem…”.
A letra revela a negação e, crucialmente, a busca pela aprovação de uma figura paterna, ligando a adicção diretamente ao seu drama original.
O Ato Final: A Impossibilidade de Reescrever o Roteiro
A tragédia de Amy Winehouse é a tragédia da repetição sem elaboração.
Presa no seu roteiro inconsciente, cada tentativa de encontrar uma saída a afundava ainda mais no mesmo enredo. A fama massiva apenas amplificou o drama, transformando o seu palco privado num espetáculo global, o que tornou a possibilidade de uma pausa e de um trabalho de elaboração ainda mais difícil.
A análise oferece precisamente isso: um espaço para pausar a encenação.
É um lugar onde o roteiro pode ser finalmente lido, onde as palavras podem substituir a atuação (acting out).
Ao compreender a origem do padrão, ao conectar a dor presente com a sua história passada, o sujeito ganha a possibilidade de desarmar a compulsão à repetição.
A morte de Amy aos 27 anos, por intoxicação alcoólica, não foi, nesta leitura, um ato isolado de excesso. Foi o final inevitável de um roteiro que ela foi forçada a seguir até às últimas consequências. Sem um espaço onde pudesse reescrever a sua história, ela estava destinada a repeti-la.
Este artigo é um convite para olhar para além da caricatura da “estrela torturada” e escutar a história que a sua vida nos conta — uma história sobre a força avassaladora do inconsciente e sobre a importância vital de um espaço onde os nossos roteiros mais antigos possam, finalmente, ser lidos, compreendidos e, quem sabe, transformados.
Referências
¹ AMY. Direção: Asif Kapadia. Produção: James Gay-Rees. Universal Music, 2015. Documentário.
² FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920). In: Obras Completas, vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Como Citar Este Artigo (ABNT)
SANTANA, Jansen. O Roteiro de Amy: Uma Análise sobre Repetição, Trauma e Destino. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 22 jul. 2025. Disponível em: <Link da página> Acesso em: [data de acesso].
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