No topo da pirâmide corporativa, o empreendedor, o líder ou a coordenadora podem estar rodeados de pessoas — diretores, conselheiros, equipes inteiras. No entanto, é precisamente neste lugar de máximo poder e visibilidade que emerge uma das formas mais agudas de solidão.

A solidão deste profissional não é a ausência de companhia, mas a ausência de pares com quem se possa partilhar o peso esmagador da decisão final, a angústia da incerteza e o fardo dos segredos que a posição impõe.

Esta não é uma queixa trivial; é um sofrimento psíquico real. A liderança é investida de uma função simbólica — a de pai ou mãe, de guia, de salvador(a) — que a isola.

A pessoa torna-se depositária das esperanças e ansiedades de toda a organização, um papel que a obriga a manter uma persona de controle e infalibilidade, sufocando seu próprio eu.

Para a psicanálise, esta solidão é um sintoma da própria estrutura do poder. O trabalho analítico oferece algo raro: um espaço de deposição.

Um lugar onde a persona da liderança pode ser temporariamente deixada na porta e a voz do sujeito, com suas dúvidas, medos e exaustão, pode finalmente ser ouvida sem julgamentos.

Este artigo explora as raízes inconscientes da solidão na liderança e aponta para um caminho de elaboração que é vital não apenas para a saúde de quem lidera, mas para a saúde de toda a organização que comanda.

Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Uma peça de rei de xadrez, sozinha no centro de um tabuleiro, simbolizando a solidão do líder e o isolamento do poder.
Legenda da imagem: Uma peça de rei de xadrez, sozinha no centro de um tabuleiro, simbolizando a solidão do líder e o isolamento do poder.

Sumário

Introdução: O Paradoxo do Poder

No topo da pirâmide corporativa, a liderança está rodeada de pessoas — diretores, conselheiros, equipes inteiras. Sua agenda é uma sucessão de reuniões; em seu celular, um fluxo incessante de interações.

No entanto, é precisamente neste lugar de máximo poder e visibilidade que emerge uma das formas mais agudas e paradoxais de solidão.

A solidão do profissional que carrega responsabilidades não é a ausência de companhia, mas a ausência de pares com quem se possa partilhar o peso esmagador da decisão final, a angústia da incerteza e o fardo dos segredos que a posição impõe.

Esta não é uma queixa trivial ou um luxo de executivos; é um sofrimento psíquico real e com consequências devastadoras em muitas profissões.

O profissional que assume uma liderança é investido de uma função simbólica — a de pai ou mãe, de guia, de salvador(a) — que o isola fundamentalmente do resto da organização ou o mantém na jornada do empreendedor independente.

A pessoa torna-se depositária das esperanças e ansiedades de todos, um papel que a obriga a manter uma persona de controle, resiliência e infalibilidade, muitas vezes sufocando seu próprio eu.

A psicanálise oferece uma lente única para compreender este fenômeno, não como uma falha de gestão, mas como uma consequência inevitável da estrutura psíquica do poder.

O Pódio Solitário: A Estrutura da Solidão na Liderança

A solidão na liderança não é um sentimento, mas uma posição estrutural. O psicanalista Manfred Kets de Vries, um dos maiores estudiosos da psicodinâmica da liderança, argumenta que o poder inerentemente isola¹.

À medida que um indivíduo ascende na hierarquia, a natureza de suas relações muda fundamentalmente. As conversas tornam-se mais calculadas, o feedback menos sincero, e a camaradagem genuína é substituída por uma complexa teia de projeções, idealizações e rivalidades.

A liderança deixa de ser vista como uma colega e passa a ser vista como uma função. A pessoa é “a Chefe”, “o Presidente”, “a CEO”.

Este processo de despersonalização é uma via de dois sentidos: a equipe projeta nela uma figura de autoridade idealizada (ou temida), e a própria pessoa, para suportar a pressão, acaba por se identificar com essa persona, criando uma cisão entre a sua função pública e o seu self privado.

É nesta fenda que a solidão se instala, um vazio que nenhum relatório de performance ou bônus anual consegue preencher.

O Fardo da Decisão e a Angústia do Segredo

Se a estrutura isola, a responsabilidade sela o confinamento. Quem lidera é, por definição, a pessoa que detém a palavra final.

Carrega o fardo de decisões que impactam a vida de outras pessoas — demissões, investimentos de risco, mudanças estratégicas. Esta responsabilidade é intransferível e, em sua essência, solitária.

Além disso, a liderança é a guardiã dos segredos da organização ou de seus negócios. Conhece as vulnerabilidades financeiras, os conflitos no conselho de administração, as crises iminentes.

Esta carga de conhecimento não partilhado cria uma barreira invisível entre ela e o resto do mundo. Não pode desabafar sobre sua maior angústia profissional com sua equipe, pois isso geraria pânico e inseguranças.

Muitas vezes, não o pode fazer nem mesmo em casa, para proteger sua família ou porque seu cônjuge não compreenderia a magnitude do que está em jogo.

 O silêncio torna-se uma condição de sua função, um silêncio que ecoa e se transforma em ansiedade, insônia e, por vezes, em depressão.

A Transferência no Poder: A Liderança como Figura Parental

A psicanálise oferece um conceito poderoso para compreender a dinâmica relacional na liderança: a transferência. De forma inconsciente, os colaboradores projetam em quem lidera figuras de seu passado, mais comumente, figuras parentais.

Buscam na liderança a aprovação, a proteção, a orientação e a justiça que, talvez, não tenham recebido em sua história original.

O(a) líder torna-se, sem o saber, o palco onde se encenam os dramas infantis de toda a sua equipe. É o “pai bom” ou a “mãe boa” quando distribui bônus, e o “pai mau” ou a “mãe má” quando exige resultados.

Esta dinâmica transferencial é uma fonte imensa de poder, mas também de um profundo isolamento. Como pode ter uma relação autêntica com alguém que, inconscientemente, não a vê como ela é, mas como uma reedição de uma figura de seu passado?

Está permanentemente sendo julgada, não pelo seu desempenho real, mas por sua capacidade de corresponder a estas fantasias inconscientes.

A Análise como Espaço de Deposição e Elaboração

Se a solidão de quem lidera é estrutural, onde pode essa pessoa encontrar um espaço para ser simplesmente um sujeito? A análise oferece precisamente isso: um espaço de deposição.

É o único lugar onde a persona deste(a) profissional de poder pode ser temporariamente deixada na porta e a voz do indivíduo, com suas dúvidas, medos, culpas e exaustão, pode finalmente ser ouvida sem julgamentos e sem consequências para a organização.

O trabalho analítico com líderes não é coaching de performance. Não se trata de oferecer “5 dicas para ser um líder melhor”. Trata-se de:

  • Elaborar o Fardo: Dar palavras à angústia da decisão e ao peso do segredo.
  • Compreender a Dinâmica: Analisar os fenômenos transferenciais, ajudando a liderança a perceber as projeções de que é alvo e a não se identificar com elas.
  • Integrar a Persona e o Self: Criar pontes entre a armadura do(a) profissional e a vulnerabilidade do ser humano, permitindo uma liderança mais autêntica e menos desgastante.

A solidão do poder é uma condição inerente à liderança, mas o sofrimento que dela advém não precisa ser.

A análise é o caminho para transformar este isolamento estrutural numa solidão criativa e reflexiva, vital não apenas para a saúde de quem lidera, mas para a sabedoria e a sustentabilidade de toda a organização que comanda.

Referências

¹ KETS DE VRIES, Manfred F. R. The Leader on the Couch: A Clinical Approach to Changing People and Organizations. Chichester, UK: John Wiley & Sons, 2006.

² FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). In: Obras Completas, vol. 15. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Como Citar Este Artigo (ABNT)

SANTANA, Jansen. A Solidão do Líder: Uma Leitura Psicanalítica do Poder. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 22 jul. 2025. Disponível em: <link da página>. Acesso em: [data de acesso].

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