Vivemos em uma cultura performática que aplaude a exaustão como se fosse uma medalha de honra. O profissional que “vira noite”, que responde e-mails de madrugada, que sacrifica o descanso em nome da produtividade, é frequentemente visto como um herói corporativo.

Nesse cenário, o burnout chega de forma silenciosa, não como um fracasso pessoal, mas como a consequência lógica de um sistema que esqueceu os limites do humano.

Muitos que chegam ao meu consultório descrevem o burnout com uma linguagem de falha: “Eu não estou dando conta”, “Perdi a minha capacidade”, “Sinto-me fraco”. A primeira etapa do nosso trabalho, portanto, não é “consertar” o esgotamento, mas ressignificá-lo. Burnout não é fraqueza; é um luto.

É o luto por um ideal de performance inalcançável, pela perda de conexão consigo mesmo e, muitas vezes, pela desilusão com um caminho profissional que prometia realização, mas entregou exaustão.

Do ponto de vista da psicanálise o burnout não é apenas um “stress crônico no local de trabalho”.

É um colapso do nosso aparelho psíquico, uma falha no sistema que nos permite desejar, criar e encontrar sentido.

Reduzir esta complexa experiência a uma mera “gestão de stress” é tratar a febre sem investigar a infecção.

A análise busca as raízes: que pacto inconsciente foi feito com o trabalho? Que ideal de perfeição está a ser perseguido? Que parte de si mesmo foi silenciada em nome da produtividade?

O caminho para sair do burnout não é apenas “descansar mais”, mas um processo de reconstrução.

Trata-se de um processo pedagógico, onde aprendemos a ouvir os sinais do nosso corpo e da nossa mente, a estabelecer limites saudáveis e a redefinir o que significa “sucesso” em nossos próprios termos.

É a transição de uma performance para os outros para uma vida com propósito para si.

Se estas palavras ressoam com a sua experiência, saiba que o esgotamento não precisa de ser o fim da linha. Ele pode ser o doloroso, mas potente, início de uma nova forma de viver e trabalhar.

Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Uma xícara de chá e um caderno aberto em uma mesa, simbolizando a pausa e a reflexão necessárias para repensar o esgotamento profissional.
Legenda da foto: Uma xícara de chá e um caderno aberto em uma mesa, simbolizando a pausa e a reflexão necessárias para repensar o esgotamento profissional.

Sumário

Introdução: A Exaustão como Símbolo de Status

Vivemos em uma cultura que aplaude a exaustão como se fosse uma medalha de honra. O profissional que “vira noite”, que responde e-mails de madrugada, que sacrifica o descanso em nome da produtividade, é frequentemente visto como um herói corporativo. Nesse cenário, o burnout chega de forma silenciosa, não como um fracasso pessoal, mas como a consequência lógica de um sistema que esqueceu os limites do humano. A Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Esgotamento Profissional, é mais do que cansaço; é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por um estresse excessivo e prolongado.

Muitos que chegam ao meu consultório descrevem o burnout com uma linguagem de falha: “Eu não estou dando conta”, “Perdi a minha capacidade”, “Sinto-me fraco”. A primeira etapa do nosso trabalho, portanto, não é “consertar” o esgotamento, mas ressignificá-lo. Burnout não é fraqueza; é um luto. É o luto por um ideal de performance inalcançável, pela perda de conexão consigo mesmo e, muitas vezes, pela desilusão com um caminho profissional que prometia realização, mas entregou exaustão. É um sinal de que um limite foi ultrapassado, um limite que nem sempre sabíamos que existia.

A Anatomia do Esgotamento: Uma Visão Psicanalítica

Do ponto de vista da psicanálise, o burnout não é apenas um “stress crônico no local de trabalho”, como define a Organização Mundial da Saúde¹. É um colapso do nosso aparelho psíquico, uma falha no sistema que nos permite desejar, criar e encontrar sentido. O psicanalista Christophe Dejours, em sua obra “A Banalização da Injustiça Social”, argumenta que o sofrimento no trabalho emerge quando o abismo entre o trabalho prescrito (o que se deve fazer) e o trabalho real (o que efetivamente se faz) se torna intransponível². Essa dissonância é o terreno fértil para o esgotamento. O burnout se manifesta classicamente em três dimensões:

A Exaustão Emocional: O Secar da Fonte Interna

Esta é a dimensão mais visceral do burnout. É a sensação de que a fonte interna de energia emocional simplesmente secou. Não se trata de um cansaço comum que uma boa noite de sono resolve, mas de uma fadiga profunda que permeia todas as áreas da vida. A pessoa sente-se incapaz de se conectar com os outros, de sentir empatia ou mesmo de se importar com tarefas que antes eram significativas. É um estado de entorpecimento, uma defesa psíquica contra o excesso de demandas que se tornaram insuportáveis. O mundo perde a cor, e a indiferença torna-se um refúgio perigoso.

A Despersonalização: O Cinismo como Escudo

Quando a exaustão se instala, o psiquismo busca formas de se proteger. A despersonalização é um desses mecanismos de defesa. Ela se manifesta como um distanciamento cínico e negativo em relação ao trabalho, aos colegas e aos clientes. O profissional começa a tratar as pessoas como objetos, a usar um humor ácido e a demonstrar uma irritabilidade constante. Este cinismo não é um traço de caráter, mas um escudo. É uma tentativa desesperada de criar uma distância emocional para evitar mais dor e decepção, mas que, paradoxalmente, aprofunda o sentimento de isolamento e desconexão.

A Redução da Realização Pessoal: A Perda de Sentido

Esta é talvez a dimensão mais dolorosa do burnout. É a crença corrosiva de que o seu trabalho já não importa, de que você é ineficaz e incompetente. Conquistas passadas perdem o valor, e o futuro parece desprovido de propósito. A pessoa olha para a sua trajetória e sente um vazio, questionando o valor de anos de dedicação. Essa sensação de ineficácia alimenta um ciclo vicioso: quanto menos realizada a pessoa se sente, menos energia ela tem para se engajar, o que, por sua vez, reforça a sensação de fracasso.

Reduzir esta complexa experiência a uma mera “gestão de stress” é tratar a febre sem investigar a infecção. A análise busca as raízes: que pacto inconsciente foi feito com o trabalho? Que ideal de perfeição está a ser perseguido? Que parte de si mesmo foi silenciada em nome da produtividade?

O Pacto Inconsciente com o Trabalho: A Origem do Esgotamento

Ninguém escolhe conscientemente o caminho do burnout. Ele é, muitas vezes, o resultado de um pacto silencioso, um acordo inconsciente que fazemos com a nossa profissão. Este pacto é alimentado por ideais sociais e por nossas próprias histórias pessoais. Como aponta uma reportagem da BBC News Brasil, a “cultura da agitação” (hustle culture) normalizou a ideia de que o excesso de trabalho é sinônimo de dedicação e sucesso³.

Para muitos profissionais de alta performance, o trabalho não é apenas um emprego; é o principal palco para a validação do seu valor. O sucesso, as promoções e o reconhecimento tornam-se substitutos para a autoestima. O pacto, então, pode ser: “Eu sacrificarei meu tempo, minha saúde e minhas relações em troca de validação e de um sentimento de importância”. No início, este acordo funciona. A dedicação extrema traz recompensas. Mas, com o tempo, o preço torna-se impagável. O psiquismo começa a protestar contra um sacrifício que se tornou excessivo.

A análise permite trazer este pacto à luz da consciência. Ao compreender as raízes dessa necessidade de validação externa – que pode remontar a experiências da infância e à forma como aprendemos a ser amados – o indivíduo pode começar a questionar os termos desse contrato. É um convite para encontrar fontes de valor que não dependam exclusivamente da performance profissional.

Para Além da Recuperação: A Reconstrução como Processo Pedagógico

O caminho para sair do burnout não é apenas “descansar mais” ou “tirar umas férias” – embora isso seja fundamental. É um processo de reconstrução. É um trabalho de luto que nos permite abandonar os ideais que nos adoeceram e, a partir daí, construir uma nova relação com o trabalho e, mais importante, com nós mesmos.

Esta reconstrução, informada pela minha trajetória em Ciências da Educação, pode ser vista como um processo pedagógico. Trata-se de aprender uma nova forma de viver e trabalhar.

Aprendendo a Escutar os Sinais

O corpo e a mente enviam sinais de esgotamento muito antes do colapso total: insônia, irritabilidade, dores de cabeça, dificuldade de concentração. O primeiro passo pedagógico é aprender a reconhecer e a respeitar estes sinais, entendendo-os não como fraquezas a serem suprimidas, mas como mensageiros importantes que indicam a necessidade de uma pausa ou de uma mudança de rumo.

Aprendendo a Estabelecer Limites

Para quem construiu uma identidade baseada na disponibilidade total, dizer “não” pode ser um ato de imensa dificuldade. O processo analítico ajuda a fortalecer o “eu” a ponto de ser possível estabelecer limites saudáveis sem sentir culpa ou medo de rejeição. Aprender a delimitar o horário de trabalho, a desconectar-se nos fins de semana e a priorizar o autocuidado são competências essenciais que são construídas na análise.

Aprendendo a Redefinir o Sucesso

A reconstrução envolve um questionamento profundo sobre o que significa “sucesso”. É apenas o próximo cargo? O próximo bônus? Ou pode ser a qualidade das suas relações, o tempo para um hobby, a paz de espírito? A análise oferece um espaço para explorar estas questões e para construir uma definição de sucesso que seja pessoal, autêntica e, acima de tudo, sustentável.

É a transição de uma performance para os outros para uma vida com propósito para si. Se estas palavras ressoam com a sua experiência, saiba que o esgotamento não precisa de ser o fim da linha. Ele pode ser o doloroso, mas potente, início de uma nova forma de viver e trabalhar. Se você se sente paralisado pelo esgotamento e busca uma compreensão mais profunda para além dos sintomas, convido-o a iniciar uma conversa.

Referências

¹ ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). CID-11: Classificação Internacional de Doenças. 2022. Disponível em: https://icd.who.int/en. Acesso em: 18 jul. 2025.

² DEJOURS, Christophe. A Banalização da Injustiça Social. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

³ LUF KIN, Bryan. The ‘hustle culture’ is facing a backlash. BBC News Brasil, 29 ago. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/worklife/article/20210825-the-hustle-culture-is-facing-a-backlash. Acesso em: 18 jul. 2025.

Como Citar Este Artigo (ABNT)

SANTANA, Jansen. Burnout não é Fraqueza: Repensando o Esgotamento para Além da Produtividade. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 18 jul. 2025. Disponível em: <link da página>. Acesso em: [data de acesso].

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