O currículo é impecável, as promoções são consistentes, os elogios são públicos. Para o mundo exterior, você é a imagem do sucesso.
Mas, internamente, no silêncio que precede uma reunião importante ou após a conclusão de um projeto bem-sucedido, uma voz sussurra: “Eu sou uma fraude. A qualquer momento, eles vão descobrir.”
Este sentimento paralisante, conhecido como a “Síndrome do Impostor”, não é um sinal de humildade, mas uma forma de sofrimento psíquico que afeta milhões de profissionais de alta performance.
É a convicção angustiante de que suas conquistas são fruto da sorte, do acaso ou de um engano, e não de sua competência real.
Para a psicanálise, o fenômeno do impostor não é apenas uma questão de “baixa autoestima”.
Ele aponta para conflitos mais profundos, muitas vezes enraizados em nossas primeiras experiências sobre como deveríamos ser para sermos amados e reconhecidos.
A performance impecável torna-se uma defesa, uma tentativa de construir uma persona à prova de falhas para proteger um eu interior que se sente inadequado.
Este artigo é um convite para olhar para além da autocrítica.
É uma proposta para compreender a síndrome do impostor não como uma sentença, mas como um sintoma que nos conta uma história sobre nossas feridas mais antigas e sobre a possibilidade de construir um sentimento de valor que seja, finalmente, nosso.
Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Sumário
Introdução: O Teatro Privado do Impostor
O currículo é impecável, as promoções são consistentes, os elogios são públicos. Para o mundo exterior, você é a imagem do sucesso. Mas, internamente, no silêncio que precede uma reunião importante ou após a conclusão de um projeto bem-sucedido, uma voz paralisante sussurra: “Eu sou uma fraude. A qualquer momento, eles vão descobrir.”
Este sentimento angustiante, batizado de “Fenômeno do Impostor” pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978¹, é uma forma de sofrimento psíquico que assombra silenciosamente os corredores do poder, as salas de cirurgia e os escritórios de advocacia.
Afeta, paradoxalmente, aqueles que mais acumulam evidências de sua própria competência.
Não se trata de humildade, mas da convicção persistente de que suas conquistas são fruto da sorte, do acaso ou de um elaborado engano que está prestes a ser desmascarado.
Enquanto abordagens cognitivas focam em tentar “corrigir” esses pensamentos a cada repetição, a psicanálise nos convida a fazer uma pergunta diferente: que história essa voz do impostor está tentando nos contar?
Para Além da "Síndrome": Uma Perspectiva Psicanalítica
Para a psicanálise, o fenômeno do impostor não é uma “síndrome” no sentido médico, mas um sintoma.
E como todo sintoma, ele é uma mensagem cifrada do inconsciente, uma formação de compromisso que revela um conflito profundo.
A questão central não é “por que me sinto uma fraude?”, mas sim “de quem, em minha história, eu precisei me esconder para ser amado?”.
O sentimento de ser um impostor frequentemente tem suas raízes nas dinâmicas da infância. Pode emergir em um ambiente familiar onde a criança sentiu que o amor e o reconhecimento estavam condicionados a uma performance específica: ser o “aluno perfeito”, o “filho bonzinho”, aquele que “não dá trabalho”.
Nesse cenário, a criança aprende que seu eu espontâneo, com suas falhas e vulnerabilidades (o Verdadeiro Self, na linguagem de Winnicott²), não é digno de amor. Para sobreviver psiquicamente, ela constrói um Falso Self, uma persona idealizada que cumpre as expectativas externas.
O sucesso na vida adulta torna-se, então, uma continuação dessa performance. O profissional de alta performance não está apenas executando uma tarefa; ele está tentando, incessantemente, validar a existência desse Falso Self.
O medo de ser “descoberto” não é o medo de que descubram uma incompetência técnica, mas o medo de que descubram que, por trás da máscara do sucesso, existe um ser humano comum, falho e vulnerável.
As Defesas do Impostor: Perfeccionismo e Autossabotagem
Para manter a “farsa”, o psiquismo do “impostor” desenvolve mecanismos de defesa sofisticados, mas exaustivos.
O Perfeccionismo como Escudo
O perfeccionismo não é uma busca pela excelência, mas uma tentativa desesperada de evitar a crítica. Cada projeto, cada relatório, cada apresentação precisa ser impecável, pois qualquer falha, por menor que seja, é vivida como a prova definitiva da sua inadequação.
O trabalho nunca é motivado pelo prazer da criação, mas pelo medo da exposição. Isso leva a um ciclo de exaustão e ansiedade, onde o alívio de uma tarefa concluída dura pouco, logo substituído pela angústia do próximo desafio.
A Procrastinação e a Autossabotagem
Paradoxalmente, o medo de não corresponder às expectativas pode levar à procrastinação. Adiar o início de uma tarefa importante é uma forma inconsciente de se proteger.
Se o projeto for feito às pressas e ainda assim for bem-sucedido, a pessoa pode atribuir o sucesso à sorte (“Imagine se eu tivesse tido tempo!”).
Se falhar, a desculpa está pronta (“Eu não tive tempo suficiente”). Em ambos os casos, a competência real nunca é verdadeiramente testada, e o sentimento de fraude se mantém intacto.
A Análise como Espaço de Autenticidade
O tratamento para o sentimento de impostura não passa por acumular mais certificados ou buscar mais validação externa.
Isso apenas alimentaria o ciclo. O caminho da transformação passa por criar um espaço onde o Verdadeiro Self possa, finalmente, aparecer e ser acolhido.
Desconstruindo o Ideal
A análise oferece um ambiente seguro para desconstruir os ideais de perfeição que nos aprisionam.
É um trabalho de luto, onde elaboramos a perda da fantasia de sermos infalíveis e aprendemos a integrar nossas falhas e vulnerabilidades como parte constituinte de quem somos.
O psicanalista francês Jacques Lacan nos lembra que a busca por uma completude imaginária é a fonte de muito sofrimento³.
A análise nos ajuda a aceitar a nossa “falta”, a nossa incompletude, como a condição fundamental da existência.
Apropriando-se do Sucesso
O trabalho analítico permite que o sujeito se aproprie de suas próprias conquistas. Ao revisitar sua história, não para culpar o passado, mas para compreendê-lo, a pessoa pode começar a separar o que é seu do que é a expectativa do outro.
Ela começa a perceber que suas conquistas não são um golpe de sorte, mas o resultado de seu esforço, de sua inteligência e de seu desejo.
O objetivo final da análise, neste contexto, é permitir que o indivíduo construa um sentimento de valor que seja interno, sólido e que não dependa da aprovação constante do mundo exterior.
É a jornada para silenciar a voz do impostor, não através da negação, mas através da compreensão profunda de sua origem, permitindo que uma nova voz, mais autêntica e compassiva, possa finalmente emergir. Se esta busca por autenticidade ressoa com você, convido-o a iniciar uma conversa.
Referências
¹ CLANCE, Pauline R.; IMES, Suzanne A. The imposter phenomenon in high achieving women: Dynamics and therapeutic intervention. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, v. 15, n. 3, p. 241, 1978.
² WINNICOTT, Donald Woods. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
³ LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.
Como Citar Este Artigo (ABNT)
SANTANA, Jansen. A Síndrome do Impostor: Por que o Sucesso Externo não Silencia a Dúvida Interna?. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 22 jul. 2025. Disponível em: <Link da página>. Acesso em: [data de acesso].
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