No palco global, ela é Anitta: a empresária implacável, a artista multifacetada, a máquina de alta performance que parece não ter limites.

Mas por trás da persona construída para o sucesso, existe Larissa de Macedo Machado, a mulher que carrega o peso das próprias ambições.

O documentário “Anitta: Made in Honório“¹, da Netflix, mais do que um vislumbre dos bastidores da fama, é um convite para uma análise profunda sobre um dos maiores dilemas da vida contemporânea: o conflito entre quem somos e quem precisamos ser para vencer.

A história de Anitta é um estudo de caso sobre a cisão psíquica. “Anitta” é a persona, a armadura criada para enfrentar um mercado predador. “Larissa” é o self, o núcleo que sente a exaustão, a ansiedade e as dores dos sacrifícios.

Essa batalha interna não é exclusiva dos artistas. É a realidade de inúmeros executivos, médicos, advogados e profissionais que, na busca incessante pelo sucesso, correm o risco de se perderem de si mesmos.

Este artigo propõe um olhar psicanalítico sobre essa jornada, conectando a busca de Anitta por equilíbrio com os quadros de burnout, ansiedade, depressão e TDAH em adultos, que tantas vezes emergem como sintomas desse conflito.

É uma reflexão sobre o custo da performance e sobre a importância de um espaço onde “Anitta” e “Larissa” possam, finalmente, conversar.

Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Um espelho refletindo a divisão entre uma persona de palco (Anitta) e um eu vulnerável (Larissa), simbolizando o conflito psíquico da alta performance
Legenda da imagem: Um espelho refletindo a divisão entre uma persona de palco (Anitta) e um eu vulnerável (Larissa), simbolizando o conflito psíquico da alta performance

Sumário

Introdução: O Espetáculo do Eu na Era da Performance

No palco global, ela é Anitta: a empresária implacável, a artista multifacetada, a estratega de marketing genial, a máquina de alta performance que parece não ter limites. Mas por trás da persona construída para o sucesso, existe Larissa de Macedo Machado, a mulher que carrega o peso das próprias ambições, as feridas das batalhas e a exaustão de nunca poder parar.

O documentário “Anitta: Made in Honório”¹, da Netflix, mais do que um vislumbre dos bastidores da fama, é um convite para uma análise profunda sobre um dos maiores dilemas da vida contemporânea: o conflito entre quem somos e quem precisamos ser para vencer.

A história de Anitta é um estudo de caso poderoso sobre a cisão psíquica. “Anitta” é a persona, a armadura criada para enfrentar um mercado predador, calculista e infalível. “Larissa” é o self, o núcleo que sente a exaustão, a ansiedade, as dores dos sacrifícios e a necessidade de conexão autêntica.

Essa batalha interna não é exclusiva dos artistas. É a realidade silenciosa de inúmeros executivos, médicos, advogados e profissionais que, na busca incessante pelo topo, correm o risco de se perderem de si mesmos, vendo sua saúde mental se deteriorar em quadros de burnout, ansiedade generalizada e depressão.

A Cisão Psíquica: Persona, Falso Self e o Drama do Reconhecimento

Para compreender a dinâmica entre “Anitta” e “Larissa”, podemos recorrer a dois conceitos psicanalíticos poderosos. O primeiro, a “persona”, popularizado por Carl Jung², refere-se à máscara social que usamos para nos adaptarmos às demandas do mundo externo. É uma ferramenta de sobrevivência essencial. “Anitta” é uma persona magistralmente construída, a encarnação da resiliência e do controle, a CEO de si mesma.

O psicanalista D.W. Winnicott nos oferece uma lente complementar com os conceitos de “Falso Self” e “Verdadeiro Self”³. O Falso Self se desenvolve na infância como uma forma de se proteger e de agradar ao ambiente, cumprindo as expectativas externas para garantir o amor e o cuidado. O Verdadeiro Self, por outro lado, é o núcleo espontâneo, criativo e autêntico do nosso ser.

“Anitta” pode ser vista como um Falso Self hiperdesenvolvido. Uma construção genial, forjada para sobreviver e dominar uma indústria implacável.

O problema não é ter um Falso Self — todos nós temos —, mas quando ele se torna tão rígido e onipresente que sufoca a voz do Verdadeiro Self. “Larissa” é esse Verdadeiro Self.

É ela quem chora no camarim, quem expressa a vulnerabilidade, quem anseia por relações de confiança e quem, em última análise, paga o preço físico e emocional da performance incessante de Anitta. O documentário expõe de forma crua os momentos em que a armadura racha, e a exaustão de Larissa transborda em crises de ansiedade e estafa.

O Sujeito Contemporâneo e o Mal-Estar na Performance

O drama de Anitta e Larissa não é um caso isolado; é o arquétipo do sofrimento do sujeito na contemporaneidade, como brilhantemente analisado pelo psicanalista Joel Birman⁴. Vivemos na “sociedade do desempenho”, uma cultura que nos impele a uma performance constante. Somos todos empreendedores de nós mesmos, gestores da nossa própria marca pessoal, obrigados a exibir sucesso, felicidade e produtividade ininterruptas, especialmente nas vitrines das redes sociais.

Nesse cenário, a vulnerabilidade de Larissa torna-se um passivo. O Falso Self de “Anitta” torna-se a única moeda de troca aceitável. Este conflito é a origem de muito sofrimento psíquico contemporâneo:

  • O profissional que precisa ser o líder inabalável no escritório, mas que se sente um impostor por dentro.
  • A médica que precisa ser a salvadora no hospital, mas que não consegue cuidar de si mesma.
  • O advogado que projeta uma imagem de agressividade e controle, mas que sofre com a solidão.

Todos vivem, em alguma medida, a cisão entre um Falso Self performático e um Verdadeiro Self silenciado.

A Alta Performance como Sintoma e a Epidemia dos Diagnósticos

Quando o conflito entre a persona e o self se torna crônico, o psiquismo começa a emitir sinais de alarme. O que a nossa cultura frequentemente diagnostica como transtornos isolados pode ser, na verdade, o sintoma dessa guerra interna.

  • Burnout e Depressão: A exaustão de Larissa não é preguiça; é o resultado de um sistema psíquico que está operando no limite, sustentando uma persona que exige energia infinita. Quando o self não aguenta mais, a depressão e o burnout surgem como uma espécie de “desligamento de emergência”.
  • Ansiedade Generalizada e Pânico: A ansiedade constante que vemos em Anitta não é apenas “nervosismo de artista”. É o medo inconsciente de que a máscara caia, de que a fraude seja descoberta, de que Larissa não seja suficiente para sustentar o espetáculo de Anitta.
  • TDAH em Adultos e Bipolaridade Induzida: A necessidade de estar “ligada no 220” constantemente, a busca por novos estímulos e a dificuldade de foco em qualquer coisa que não seja o próximo passo da carreira podem ser confundidas com TDAH. Da mesma forma, o ciclo de euforia maníaca da performance, seguido pelo “crash” da exaustão e pelo uso de substâncias (lícitas ou ilícitas) para sustentar o ritmo, pode mimetizar um quadro de bipolaridade.

A questão que a psicanálise coloca é: estamos a tratar o transtorno ou a escutar o sintoma? Medicar a ansiedade de Anitta sem compreender o conflito que a gera é como consertar uma infiltração pintando a parede.

A Busca pelo Equilíbrio: A Análise como Espaço de Integração

Um dos aspetos mais fascinantes do documentário é a busca explícita de Anitta por novas formas de equilíbrio. Vemo-la a explorar a espiritualidade, o autoconhecimento e a terapia. Essa busca não é um sinal de fraqueza, mas de uma imensa força. É o reconhecimento de Larissa de que a persona “Anitta”, sozinha, não é sustentável.

A análise oferece precisamente o espaço para essa integração. É no consultório que a persona pode ser temporariamente despida, e a voz do self, a voz de Larissa, pode ser ouvida sem julgamentos. O trabalho analítico não visa destruir o Falso Self — “Anitta” é uma criação genial e necessária para o seu sucesso — mas sim torná-lo mais flexível, mais permeável e, acima de tudo, a serviço do Verdadeiro Self, e não o contrário.

Trata-se de ajudar o sujeito a compreender as origens da sua necessidade de performance, a elaborar as feridas que a persona tenta encobrir e a encontrar um equilíbrio mais saudável, onde haja espaço para a força e para a vulnerabilidade, para a ambição e para o descanso, para a persona e para o self.

Este artigo é um convite à reflexão. Quantos de nós vivemos reféns de nossas próprias personas, pagando um custo altíssimo em nossa saúde mental? A história de Anitta, despida do glamour, é um espelho poderoso dos desafios que todos enfrentamos na busca por uma vida que não seja apenas bem-sucedida, mas, acima de tudo, autêntica. Se você se reconhece neste conflito, saiba que existe um espaço para essa escuta.

Referências

¹ ANITTA: Made in Honório. Direção: Andrucha Waddington e Pedro Waddington. Produção: Ginga Pictures. Netflix, 2020. Série documental.

² JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2011.

³ WINNICOTT, Donald Woods. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

⁴ BIRMAN, Joel. O Sujeito na Contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

Como Citar Este Artigo (ABNT)

SANTANA, Jansen. Anitta vs. Larissa: Uma Análise sobre o Custo da Alta Performance. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 22 jul. 2025. Disponível em: <Link da página>. Acesso em: [data de acesso].

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