A dificuldade de uma criança na escola reverbera por toda a família. A angústia contida nas frases “meu filho não aprende” ou “ele não presta atenção”, “é muito lento” é um dos pontos de partida mais comuns para a busca de ajuda. Em uma cultura que anseia por respostas rápidas, o diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) surge, muitas vezes, como uma explicação apaziguadora. Ele oferece um nome para a inquietação, um motivo para a distração.

O diagnóstico é uma ferramenta importante, mas não pode ser o ponto final da investigação.

Reduzir a complexidade de uma criança a uma sigla é correr o risco de silenciar a história que aquela “desatenção” está tentando contar. Para a psicanálise, um sintoma nunca é apenas um déficit; é uma expressão, uma linguagem.

A agitação de uma criança pode ser a manifestação de uma ansiedade que ela não consegue nomear.

A dificuldade de foco pode ser um refúgio de um ambiente familiar ou escolar que se tornou, de alguma forma, insuportável para construção cognitiva, sua própria realidade psíquica, sem conseguir explicar de forma evidente o que experimenta, para um adulto.

Este artigo é um convite para olharmos para além do rótulo. É uma proposta para escutar a criança por trás do diagnóstico, compreendendo os desafios de aprendizagem não como uma falha a ser corrigida, mas como parte de uma narrativa singular que precisa de ser acolhida e compreendida em sua totalidade.

Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Um lápis de cor quebrado sobre uma folha em branco, simbolizando a frustração e o potencial contido nos desafios de aprendizagem de uma criança.
Legenda da foto: Um lápis de cor quebrado sobre uma folha em branco, simbolizando a frustração e o potencial contido nos desafios de aprendizagem de uma criança.

Sumário

A Angústia por Trás da Dificuldade Escolar

A dificuldade de uma criança na escola reverbera por toda a família. A angústia contida na frase “meu filho não aprende” é um dos pontos de partida mais comuns e dolorosos para a busca de ajuda.

Em uma cultura que anseia por respostas rápidas e soluções claras, o diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) surge, muitas vezes, como uma explicação apaziguadora. Ele oferece um nome para a inquietação, um motivo para a distração, e um caminho aparentemente claro a seguir, frequentemente medicamentoso.

O diagnóstico é, sem dúvida, uma ferramenta importante no diálogo entre a saúde e a educação.

No entanto, quando ele se torna o ponto final da investigação, corremos um risco imenso: o de reduzir a complexidade de uma criança a uma sigla.

Ao nos contentarmos com o rótulo, silenciamos a história que aquela “desatenção” ou “hiperatividade” está tentando contar.

Para a psicanálise, um sintoma nunca é apenas um déficit; é uma expressão, uma linguagem cifrada que emerge quando as palavras ainda não são suficientes para dar conta de um sofrimento.

O Diagnóstico como Ponto de Partida, não de Chegada

A popularização de diagnósticos como o TDAH trouxe consigo uma consequência paradoxal. Por um lado, ajudou a combater o estigma, tirando a criança do lugar de “preguiçosa” ou “indisciplinada”. Por outro, como aponta a discussão sobre a medicalização da vida¹, corre-se o risco de transformar toda e qualquer diferença no modo de aprender e de estar no mundo em uma patologia.

A questão que a psicanálise propõe não é negar a existência de dificuldades reais de atenção e concentração, mas sim perguntar: o que mais está em jogo aqui?

  • A agitação de uma criança pode ser a manifestação de uma ansiedade que ela não consegue nomear?
  • A dificuldade de foco pode ser um refúgio psíquico de um ambiente familiar ou escolar que se tornou, de alguma forma, insuportável para sua construção cognitiva?
  • A “falta de limites” pode ser um pedido desesperado por um contorno, por uma presença parental mais firme e segura?

Winnicott e o "Ambiente Suficientemente Bom": Repensando o Papel dos Cuidados

Como nos ensina Donald Winnicott, um dos grandes pensadores da infância, o desenvolvimento de uma criança não acontece no vácuo, mas sempre em relação a um “ambiente suficientemente bom”².

Este conceito é de uma importância libertadora, especialmente para os pais de hoje, que vivem sob a imensa pressão de serem perfeitos.

Winnicott não fala de um ambiente perfeito, mas de um ambiente “suficientemente bom”. O que isso significa? Significa um ambiente que, na maior parte do tempo, é capaz de se adaptar às necessidades do bebê e da criança, oferecendo segurança, afeto e um senso de continuidade. Mas, crucialmente, é também um ambiente que falha.

As pequenas falhas do cuidador, quando não são excessivas, são fundamentais. Elas permitem que a criança comece a perceber que o mundo não é uma extensão mágica de seus desejos, forçando-a a desenvolver seus próprios recursos, sua criatividade e seu senso de realidade.

Quando uma criança apresenta dificuldades na escola, a psicanálise nos convida a olhar para este ambiente. Será que ele está sendo “suficientemente bom”?

Muitas vezes, pais de alta performance, em sua ânsia de oferecer o melhor, criam um ambiente de superestimulação ou de altas expectativas que se torna, paradoxalmente, insuficiente para as necessidades emocionais da criança.

A análise com os pais não busca culpados, mas sim ajudá-los a compreender essas dinâmicas, a aliviar a pressão pela perfeição e a reencontrar uma forma mais intuitiva e presente de se relacionar com seus filhos.

A Escuta Analítica: Decifrando a Mensagem do Sintoma

Enquanto a abordagem puramente médica ou cognitiva pode focar em treinar a atenção ou medicar a inquietação, a psicanálise oferece um tipo diferente de espaço: o da escuta.

A escuta analítica busca decifrar a mensagem por trás do comportamento.

O Brincar como Linguagem

Na análise com crianças, o brincar é a via régia para o inconsciente.

Através dos jogos, dos desenhos e das histórias, a criança encena seus conflitos, seus medos e seus desejos.

Uma criança que repetidamente desenha monstros ou que cria jogos onde tudo está sempre a desmoronar não está apenas a “distrair-se”; ela está comunicando, da forma que lhe é possível, a sua paisagem interna.

É neste espaço lúdico que o analista pode intervir, não para corrigir, mas para ajudar a criança a nomear e a elaborar o que ela sente, transformando o terror inominável em uma narrativa compreensível.

Acolhendo a História da Família

A dificuldade de uma criança nunca é apenas dela; é sempre um sintoma que emerge na dinâmica familiar.

Por isso, o trabalho analítico com crianças inclui, necessariamente, a orientação e a escuta dos pais. Compreender a história da família, as expectativas (conscientes e inconscientes) depositadas sobre a criança, os lutos não elaborados dos pais que podem ser projetados nos filhos, e os conflitos presentes no ambiente familiar é fundamental para aliviar a pressão que, muitas vezes, se manifesta como um “transtorno” no filho.

O Diálogo com a Escola: Construindo Pontes para a Aprendizagem

A minha trajetória, que une a Psicanálise à Educação, me ensinou que o cuidado com a criança não pode se restringir às paredes do consultório. É preciso construir pontes com a instituição que é, depois da família, o principal palco da sua vida: a escola.

Muitas vezes, a escola é a primeira a sinalizar que algo não vai bem, mas a comunicação entre a família e os educadores pode ser marcada por angústia, culpa e mal-entendidos. O papel do analista, neste contexto, pode ser o de um tradutor e mediador.

O objetivo não é “psicanalisar” os professores, mas sim oferecer-lhes uma nova lente para enxergar a criança. Trata-se de um trabalho pedagógico que ajuda os educadores a compreenderem que um comportamento disruptivo não é um ataque pessoal, mas um pedido de ajuda.

Que a “desatenção” pode ser um sinal de sofrimento. Ao partilhar uma compreensão mais profunda sobre a realidade psíquica da criança (sempre com a autorização dos pais e preservando o sigilo), podemos, em conjunto, criar estratégias pedagógicas que sejam mais acolhedoras e eficazes, transformando a sala de aula em um ambiente verdadeiramente inclusivo para aquela singularidade.

Uma Abordagem Pedagógica para a Singularidade

A minha abordagem vê a dificuldade de aprendizagem não como um defeito a ser eliminado, mas como uma singularidade a ser compreendida. Trata-se de um processo pedagógico que visa:

  • Devolver a Autoria à Criança: Ajudar a criança a encontrar suas próprias formas de aprender e de se expressar, valorizando suas potências em vez de focar apenas em seus déficits. É um convite para que ela se torne a autora da sua própria jornada de conhecimento.
  • Fortalecer o Vínculo Parental: Oferecer aos pais ferramentas para compreenderem melhor seus filhos, fortalecendo a confiança e a capacidade de oferecer o suporte emocional necessário. É um processo que visa aliviar a culpa e restaurar a alegria na relação.
  • Dialogar com a Escola: Construir pontes com a instituição de ensino, ajudando os educadores a enxergarem a criança para além do rótulo, criando estratégias pedagógicas que acolham a sua forma única de ser.

 

Este artigo é um convite para pais e educadores que sentem que a resposta para a dificuldade de uma criança não pode estar contida em uma sigla. É uma proposta para escutar a criança por trás do diagnóstico, compreendendo os desafios de aprendizagem não como uma falha, mas como parte de uma complexa e fascinante narrativa que precisa, acima de tudo, ser acolhida. Se você busca essa escuta para o seu filho, convido-o a iniciar uma conversa.

Referências

¹ FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Medicalização da vida. Dicionário de Educação Profissional em Saúde. Disponível em: https://www.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/medvid.html. Acesso em: 21 jul. 2025.

² WINNICOTT, Donald Woods. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Como Citar Este Artigo (ABNT)

SANTANA, Jansen. Meu Filho não Aprende: Para Além do Diagnóstico de TDAH. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 21 jul. 2025. Disponível em: <Link da página> Acesso em: [data de acesso].

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