Em nossa busca incessante por respostas e soluções, tornamo-nos fluentes em uma nova língua: a dos diagnósticos. Tristeza vira “depressão”, inquietação vira “TDAH”, e as complexas variações do humor ganham o rótulo de “transtorno bipolar”. A medicalização da vida, um fenômeno amplamente discutido por instituições como a Fiocruz, oferece um alívio aparente ao dar nome e categoria ao nosso mal-estar. No entanto, corremos o risco de, ao classificar o sofrimento, perder a sua história.

Um diagnóstico pode ser um ponto de partida necessário, mas não o destino. Ele descreve o “o quê”, mas silencia sobre o “porquê”. Por que esta angústia, neste momento da minha vida? Que história este sintoma está tentando me contar?

A psicanálise, em diálogo com a medicina, oferece um contraponto a essa tendência. Em vez de focar apenas na eliminação do sintoma, a escuta analítica busca o seu sentido. Ela nos convida a desmedicalizar a nossa própria história, a trocar o rótulo pela narrativa, a compreender o sofrimento não como uma falha a ser corrigida, mas como uma mensagem a ser decifrada.

Este artigo é um convite para um olhar crítico e acolhedor sobre como nomeamos nossas dores, explorando um caminho que busca não apenas o alívio, mas a apropriação da nossa singularidade, permanecendo com a nossa autonomia sempre que possível, em nosso próprio organismo.

Nota: O Dr. Jansen Santana (PhD) I Psicanalista, realiza atendimentos em seu consultório particular em Petrópolis/RJ (Ed. Green Office II) e oferece sessões online para pacientes em todo o Brasil e no exterior. Para agendamentos I WhatsApp: (21) 98064-0042.

Fotografia de arte conceitual, um rosto humano composto por um mosaico de palavras e textos de livros antigos.
Legenda da foto: Um rosto formado por palavras, simbolizando a complexidade da história de um sujeito para além de um simples rótulo diagnóstico.

Sumário

Vivemos em uma era paradoxal. Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde mental e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos nos sentido tão perdidos em nosso próprio sofrimento. Em nossa busca incessante por respostas e soluções, tornamo-nos fluentes em uma nova língua: a dos diagnósticos. Tristeza vira “depressão”, inquietação vira “TDAH”, e as complexas variações do humor ganham o rótulo de “transtorno bipolar”. A medicalização da vida, um fenômeno amplamente discutido por instituições como a Fiocruz¹, oferece um alívio aparente ao dar nome e categoria ao nosso mal-estar.

Um diagnóstico pode ser um ponto de partida necessário, um mapa inicial que nos ajuda a navegar um território desconhecido. No entanto, corremos o risco de, ao classificar o sofrimento, perder a sua história. O rótulo, que deveria ser uma ferramenta, pode se transformar em uma identidade, uma profecia autorrealizável que limita nossa compreensão sobre nós mesmos. Ele descreve o “o quê”, mas silencia sobre o “porquê”. Por que esta angústia, neste momento da minha vida? Que história este sintoma está tentando me contar?

A Linguagem do Diagnóstico e os Limites da Descrição

Os manuais diagnósticos, como o DSM e o CID, são ferramentas essenciais para a comunicação entre profissionais de saúde e para a pesquisa. Eles criam uma linguagem comum para descrever conjuntos de sintomas, permitindo que um psiquiatra em Petrópolis e outro em Tóquio possam se referir a um mesmo quadro clínico. No entanto, é crucial compreender a natureza e os limites dessa linguagem: ela é descritiva, não explicativa.

Um diagnóstico de “Transtorno de Ansiedade Generalizada”, por exemplo, descreve brilhantemente um estado de preocupação excessiva e seus sintomas físicos. Mas ele não nos diz nada sobre a origem dessa ansiedade na história singular de um indivíduo. Seria a repetição de um padrão familiar? Uma resposta a um conflito profissional insuportável? A manifestação de um desejo reprimido? Ao nos apegarmos exclusivamente à descrição, corremos o risco de tratar todos os casos de “ansiedade” da mesma forma, ignorando a subjetividade radical de cada pessoa.

Como nos adverte o psicanalista Manoel Tosta Berlinck, a Psicopatologia Fundamental, campo no qual minha prática se ancora, busca justamente resgatar essa dimensão do sofrimento que é irredutível a uma simples classificação². Trata-se de compreender o pathos, a paixão, o excesso que nos constitui e que, por vezes, nos adoece.

A psicanálise, em seu diálogo crítico com a medicina, oferece um contraponto a essa tendência de patologização. Em vez de focar primariamente na eliminação do sintoma, a escuta analítica busca o seu sentido.

O sintoma, para a psicanálise, não é um erro a ser corrigido, mas uma formação de compromisso, uma mensagem cifrada do inconsciente. É a forma mais engenhosa, ainda que dolorosa, que o sujeito encontrou para lidar com um conflito que não pôde ser elaborado de outra maneira.

O Diálogo, não a Oposição

É fundamental esclarecer: a psicanálise não é “contra” a medicação. A medicação psiquiátrica é, muitas vezes, uma ferramenta fundamental e necessária. Ela pode oferecer a estabilidade e o alívio sintomático que permitem ao indivíduo ter a tranquilidade necessária para iniciar o trabalho da análise. A questão não é de oposição, mas de complementaridade. Enquanto a medicina pergunta “o que podemos fazer para aliviar este sintoma?”, a psicanálise pergunta “o que este sintoma está tentando dizer?”.

A abordagem é de integração. O diálogo com a medicina psiquiátrica e neurológica é constante, buscando sempre o cuidado integral do paciente.

O Risco do Alívio Imediato: Uma Reflexão Cultural

A busca por alívio da dor é legítima e humana. No entanto, a cultura contemporânea, focada na solução instantânea, apresenta um risco: o de silenciar a mensagem do sintoma antes mesmo de compreendê-la. A aclamada série da Netflix, Painkiller: Acabar de Vez Com a Dor“³, dramatiza de forma contundente as consequências devastadoras de uma abordagem que foca exclusivamente no alívio da dor, ignorando o sujeito que sofre. A epidemia de opioides que ela retrata é um caso extremo, mas serve como uma poderosa metáfora para a epidemia mais silenciosa das drogas psiquiátricas.

Este debate ganha força em discussões internacionais, como nos seminários sobre “A Epidemia das Drogas Psiquiátricas”⁴, onde se ouve cada vez mais os depoimentos de “vítimas da psiquiatria”. A questão levantada não é um ataque aos maus profissionais, mas uma crítica a um sistema que, por vezes, oferece um rótulo e uma prescrição sem garantir um espaço para a escuta da história por trás da dor. Manter o uso da medicação sem a entrada em análise é como continuamente apagar a luz de aviso do painel do carro sem nunca abrir o capô para verificar o motor. A análise é esse trabalho de investigação, que busca compreender o que o sintoma sinaliza, permitindo uma resolução mais profunda e duradoura.

Trocando o Rótulo pela Narrativa

O trabalho analítico é um convite para desmedicalizar a própria história. É um processo de tradução, onde o paciente, com a ajuda do analista, começa a transformar o rótulo (“eu sou depressivo”) em uma narrativa (“eu me sinto assim por causa de…”). Essa passagem do ser ao sentir, da identidade estática à história em movimento, é profundamente libertadora. Ela devolve ao sujeito a autoria sobre a sua própria vida.

A Liberdade de Ser para Além do Diagnóstico

Ao final, o objetivo da análise não é simplesmente “curar” um transtorno. É fortalecer o “eu”, ampliar a liberdade psíquica e a capacidade do indivíduo de se responsabilizar pelo seu desejo e de lidar com o mal-estar inerente à condição humana.

Isso pode, como consequência, levar a uma menor dependência de medicações, mas essa decisão será sempre do paciente, em diálogo com seu médico. O papel da análise é dar ao sujeito as condições psíquicas para que ele possa fazer escolhas mais conscientes e autônomas sobre sua vida, incluindo o cuidado com sua saúde.

Este artigo é um convite para um olhar crítico e, ao mesmo tempo, acolhedor sobre como nomeamos nossas dores. É uma aposta na potência da palavra e da escuta como ferramentas para ir além do diagnóstico, em busca não apenas do alívio, mas da apropriação da nossa complexa e fascinante singularidade. Se você busca essa compreensão mais profunda, convido-o a iniciar uma conversa.

Referências

¹ FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Desmedicar a vida. Disponível em: https://informe.ensp.fiocruz.br/noticias/55651 Acesso em: 21 jul. 2025.

² BERLINCK, Manoel Tosta. Psicopatologia Fundamental. São Paulo: Escuta, 2008.

³ PAINKILLER: Acabar de Vez Com a Dor. Direção: Peter Berg. Produção: Eric Newman, Peter Berg, Alex Gibney. Netflix, 2023. Minissérie.

⁴ 7° SEMINÁRIO INTERNACIONAL: A epidemia das drogas psiquiátricas (Manhã – 10/11/23). Realização: Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. YouTube, 10 nov. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mJEND5c_-Vc Acesso em: 21 jul. 2025.

Como Citar Este Artigo (ABNT)

SANTANA, Jansen. A Desmedicalização da Vida: Um Olhar Crítico sobre a Patologização do Sofrimento. Blog Dr. Jansen Santana, Petrópolis, 21 jul. 2025. Disponível em: <Link da página>. Acesso em: [data de acesso].

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